A Floresta

Por Laura Blum, 3º lugar infanto-juvenil na categoria Conto
Era uma noite fria e escura, para ser preciso, 21 de outubro. Não sei ao certo porque ainda conto os dias e olho para este miserável calendário. Prazer, meu nome é Alissa, vivo em um simples casebre, em uma vila mais simples ainda, onde o medo está mais presente que o amor, onde a floresta é um mundo de criaturas estranhas, porém é a nossa única fonte de alimento e sobrevivência.

Cá estou, pronta para exercer a tarefa a que fui designada pouco tempo atrás. Meu povo depende de mim, depende de nós, caçadores abraçados pelas sombras, que se esgueiram pela floresta em busca de alimentos. Você deve pensar que existem muitos deles, porém são apenas dois. Sim, apenas dois: eu e Tristan.

Os últimos, de tantos outros; somos os que sobraram. Algum tempo atrás algo aconteceu com eles, a cada semana dois apareciam mortos na entrada da floresta, ninguém nunca soube o que aconteceu além de mim e Tristan. Penso nisso todos os dias, eles foram designados para isso, eram os melhores dos melhores, sobreviventes e únicos capazes de fazer algo nesse vilarejo, tanta história, lições de como caçar, perdidas em meio a sangue e luta em vão.

Segundo minha mãe tudo tem um porquê, quando nasci, o céu escureceu como nunca, as plantas secaram e morreram, as cinzas da lareira formaram três palavras: Sangue das Trevas. Minha mãe começou a chorar desesperadamente e meu pai gritava que eu não era sua filha, que ele se recusava a criar um ser amaldiçoado, tentou me matar e matar minha mãe. Porém ela o mandou embora ou algo pior, ninguém mais ouviu falar dele.

Depois daquele dia tudo mudou, não recebíamos visitas, a não ser a mãe (também solteira) de Tristan e ele. Éramos amigos inseparáveis, a única diferença é que ele tinha sido designado a ser um caçador e eu nunca havia sido designada a nada, minha mãe dizia que eu não precisava passar pelo ritual do destino, eu seria costureira, não tinha como escapar disso; uma pena que ela estava errada.

Tomei coragem, em uma noite fria de janeiro entrei na sala do destino localizada no meio do vilarejo, era uma estrutura com quatro paredes de vidro. A sala é um truque barato para manter pelo menos nossa privacidade, quando se está dentro pode se ver o que está fora, mas quando se está fora, não se pode ver o que está dentro. Ao entrar lá senti uma enorme onda de calor, em poucos segundos o sacerdote apareceu. O rito do destino acontecia quando o sacerdote fizesse um furo em seu pescoço e sentisse o gosto de seu sangue.

O sacerdote fez seu trabalho, meu sangue escorreu pelo pescoço, pensei que iria morrer de dor, porém a dor cessou como se nunca tivesse existido, o sacerdote se afastou e sem mover os lábios emitiu um som, uma palavra que muitos temem: Caçadora. Meu destino estava escrito, não havia tempo para voltar atrás, muito menos opção. Voltei para casa, nunca pensei que seria caçadora, um dos ofícios mais difíceis e sombrios do vilarejo, porém muito necessário. Contar para minha mãe não foi nada fácil, mas eu não tinha escolha, era contar ou fugir de casa, não poderia esconder isso.

Durante a noite, aconcheguei-me ao lado dela e calmamente contei tudo o que tinha acontecido, sem choro, sem dor, parece que as palavras saíram da minha boca tão naturalmente quanto o ar que respirei para pronunciá-las. No entanto a reação por parte da minha mãe foi totalmente diferente, começou a chorar, pedindo o porquê de eu ter feito isso, me julgando e culpando por ter descoberto meu destino.

Após sofridos meses, minha mãe se acostumara com meu destino, com o fato de que quando eu completasse dezoito anos me juntaria a Tristan e outros caçadores, faltavam poucos dias. Eu estava tão ansiosa, mal podia esperar para começar a fazer o que eu sempre quis, aquilo a que fui designada. O que eu não esperava era que quando eu entrasse para a "ordem” tudo mudaria, mesmo sem ter começado.

Era tudo tão diferente e improvável, e quando chegasse o grande dia, tudo aconteceria como previsto, ou pelo menos, como eu achava que estava previsto. Meu novo mundo então começaria, minha nova casa, as quais pertenciam a minha nova família, uma família que amaria como sempre desejei. Finalmente este dia chegou; batidas na porta, rápidas e quase imperceptíveis. Ao abri-la consegui vislumbrar dois capuzes negros como a escuridão e embaixo deles uma mulher e um homem, ambos fortes e rígidos, caçadores. Não pude segurar um sorriso, que durou por poucos segundos, logo deixei minha miserável casa e segui minha nova família, uma família que me aceitaria como sou.

No dia seguinte me treinamento começou, meus tutores e professores prosseguiram com seus ensinamentos por duas semanas, todos os dias, todas as horas possíveis, eu treinava e aprendia meu ofício, para que ao realizar minha primeira missão eu estivesse pronta e não cometesse erros, pois eles poderiam me custar a vida. Aprendíamos a manusear facas, lanças e bestas, além de aprender lugares estratégicos caso houvesse algum eventual problema. Após esse tempo de treinamento, após as semanas mais felizes da minha vida. Fomos enviados para nossa primeira missão, eu e Tristan; íamos sempre em dupla, pois se algo acontecesse, tínhamos um ao outro. 

A caçada começou bem, tivemos que escapar de um scolther, uma das criaturas habitantes da floresta, capaz de petrificar qualquer um com o olhar e depois devorá-lo sem dó. Conseguimos alimento por cinco dias para a vila, o que surpreendeu muitos os nossos irmãos e irmãs (como chamávamos uns aos outros), éramos umas das melhores duplas, os mais novos dentre trinta e dois membros. Porque éramos os melhores eu não sabia, sei que trabalhávamos muito bem juntos e isso bastava para mim. No entanto, algo que eu nunca queria ter presenciado começou a acontecer, sem motivo, ninguém sabia como ou porquê.

Certo dia, 15 de fevereiro, a primeira dupla de caçadores apareceu morta na entrada da floresta; ambos possuíam ferimentos que nenhum de nós jamais havia visto, nenhum monstro que conhecêssemos seria capaz de causar ferimentos daquela maneira. Nós caçadores, conhecíamos a floresta, nosso lar, mas quem matou dois dos nossos melhores guerreiros, até o final de suas vidas ninguém soube, exceto eu e Tristan.

Os dias iam passando, a cada semana mais uma dupla era morta, lágrimas brotavam em meus olhos, os dias pareciam cada vez mais cinzas, mórbidos, eu sentia saudades dos mortos, sentia saudade de como era antes de tudo acontecer.

 Todos estavam mortos, quase não acredito; legados, vidas, todas perdidas, sobraram apenas Tristan e eu. Depois de quase oito meses, que pareceram oito dias, todos iam morrendo, não sabia mais como reagir, os lugares onde moraram trinta corajosos caçadores estava vazio, duas almas vagavam por lá, nada mais, nada menos. Era nosso dia de caçar, talvez o último, era nosso dever, sentíamos isso, vingar nossa família, todos que jazem em seus túmulos devem ser vingados, precisávamos fazer isso.

Às vezes é necessário correr riscos e eu corri a minha vida inteira: quando minha mãe me trancava em casa, saía sorrateiramente para brincar com Tristan, quando fui até a sala do destino e agora, quando junto com a única pessoa que sempre esteve do meu lado, minha única família, adentramos na floresta, sem ter certeza da volta.

A floresta parecia mais silenciosa que o normal, os pássaros não cantavam e não se ouvia os sussurros das fadas, o lugar mágico que era antes não é mais o mesmo, tudo havia mudado. De repente barulhos, chegando cada vez mais perto; corremos o mais rápido possível, precisávamos ficar juntos para sobreviver, eu não ia deixar meu amigo morrer e muito menos iria morrer sem vingar todas as vidas que foram perdidas.

Chegamos em uma clareira, não ouvíamos mais o barulho, os pássaros voltaram a cantar, estranho, antes que pudesse falar algo, um vento forte começou e algo se materializou em nossa frente. Uma figura feminina saiu do vento, parecia uma feiticeira, havia lido sobre elas nos livros. Eram muito raras e fortes, mas sempre possuíam um ponto fraco, mas por que ninguém conseguiu derrotar essa então?

Antes de poder fazer qualquer coisa comecei a sentir uma ardência no peito, perdi a noção de onde estava e o que estava fazendo, apenas ouvi alguns ruídos e Tristan chamando meu nome, escuridão. Não sabia onde eu estava, nem o que havia acontecido, virei meu rosto e notei que Tristan estava ao meu lado, muito ferido, comecei a examiná-lo com os olhos e perguntar o que havia acontecido, onde estávamos, porém, uma voz se sobrepôs a dele, uma voz que me soava familiar, parecia ter ouvido muito tempo atrás.
 
Sem saber o que fazer, empunhei a espada, que em um passe de mágica voou para o outro lado da sala escura em que nos encontrávamos, tentei me mover, porém estava presa à parede por algemas. A mulher não se moveu, apenas disse: "Eu sabia que voltaria, filha”. Como era possível, minha mãe não era uma feiticeira, deve ser mais um truque para me confundir, como se estivesse lendo meus pensamentos respondeu: Aquela mulher não era sua mãe, apenas lhe deu à luz, você é sangue do meu sangue, reuni toda a coragem que possuía e perguntei: "Por que matar todos?” Sem emitir nenhum som a feiticeira se deslocou até mim e disse: "Só quero você de volta, filha”. Assustada, bati com a cabeça na parede em que estava algemada, escuridão novamente.

Fui acordada por gritos, gritos de dor; vislumbrei sangue negro, como o que escorria em minhas veias, sangue do meu sangue, Tristan não estava mais ao meu lado e sim atrás de minha suposta mãe, com sua adaga acabara de matá-la,  salvando-nos. Tudo aconteceu tão rápido, em um momento eu estava conversando com a bruxa, em outro tínhamos nossa vingança, como é bom esse sabor, todos os mortos vingados, nosso trabalho estava feito.

Voltamos para casa, ambos em silêncio. Procuramos entre vários livros e, um deles, trazia o relato da bruxa das trevas, tivemos a certeza que era quem acabamos de matar e sua fraqueza, adagas de diamante, da qual era feita a de Tristan. Naquele livro de história, a lenda dizia que sua primogênita havia sido perdida em uma batalha com caçadores, seria eu? Nunca vou saber, se era minha mãe, já estava morta para mim há anos. Pouco me importa, eu estava sozinha com Tristan e tinha vingado a morte da minha família, o que nos resta é procurar outro lar. Sangue do meu sangue, vida ou morte, escolho continuar vivendo como caçadora, a me tornar algo que sempre abominei, um monstro.

Tags: #concurso #contos #cronicas #poemas #educacao #basica #setrem
Carregando comentários


© 2018 Sociedade Educacional Três de Maio
SETREM - Login
Av. Santa Rosa, 2405 Três de Maio - RS - CEP 98910-000
Fone/Fax: +55 (55) 3535 4600